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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

No Reino da Terra

Aqui sei que não irei agradar a todos, como nunca conseguimos, mesmo quando tentamos com o mais afinco possível de nossa parte. Aqui irei desagradar extremistas. Extremistas de ambas as partes, mas acredito que uma sociedade que está aberta ao diálogo, e não à guerra discursiva, deve estar preparada para lidar com o diferente. Afinal, toda a polêmica que me levou a escrever tal texto começou por conta de um “discurso dos diferentes”, também conhecido por “clamor das minorias”.

Acredito que devemos renovar nossas mentes todos os dias. Todos os dias devemos nos tornar pessoas melhores do que éramos ontem. Não devemos andar com fardos pesados por nossos erros e, menos ainda, jogá-los nos outros quando eles cometem algum, achando que isso nos dá o direito de sair condenando a quem quisermos, ainda que seja apenas com nossas vozes.

Devemos, também, iniciar uma nova postura. A postura do perdão e aceitar que todos somos humanos, não estamos 100% corretos em nossos pensamentos, falas e comportamentos. E é nessa consciência de que eu, com toda certeza, posso estar errada em alguma coisa que me sinto tranquila o suficiente para declarar minhas opiniões aqui, neste momento.

Há uns 3/ 4 anos, quando começaram as discussões sobre criminalização da homofobia e alguns membros da comunidade evangélica se auto elegeram representantes dessa classe, eu até concordava achando que esta era a luta que eles foram travar: de defender o evangelho para a livre expressão dos membros da comunidade cristã no Brasil. Entretanto, o tempo passou e o assunto ficou desgastado, os argumentos foram mal utilizados e a discussão virou briga!

Hoje, vejo pessoas usando o nome de Deus para ficar brigando com outras pessoas sobre opiniões que nunca irão se encontrar, ainda que este mundo dure mais 10.000.000 de anos.

Depois de refletir sobre a condição social do homossexual na nossa sociedade, eu, sendo negra, mulher, pobre, cotista, evangélica, praticamente um baú das minorias, entendi o que as vozes destes seres humanos estavam pedindo, respeito!

Cada um faz da vida o que bem pensa. Como diria minha mãe, “cada um cuida da sua vida sexual”. Eu ainda estendo essa frase para “quem não tem vida sexual, não cuida nem da sua. Então, não tente cuidar da dos outros”. Não consigo conceber (nem mesmo quando estava do lado dos tais “representantes evangélicos”) como um ser humano pode atacar, ferir e tratar diferencialmente outras pessoas pelo simples fato delas se relacionarem com pessoas do mesmo sexo.

Dizer que sou uma incentivadora do movimento homoafetivo seria mentira. Pelo contrário, meus princípios cristãos e sociais realmente me levam a crer que a natureza humana foi feita para buscar um cônjuge de sexo oposto, mas se os indivíduos querem buscar prazer de forma diferente, o que eu tenho com isso? Que direito isso me dá de atacar? De ferir? De maltratar quem quer que seja por conta da orientação sexual dela?

Porém, o fato de não ser uma incentivadora do movimento homoafetivo não me torna uma incentivadora do movimento homofóbico. É isso que precisa entrar na cabeça das pessoas! Não existem lados a serem tomados, não estamos em guerra e, se estamos, somos nós quem a estamos lutando, podemos simplesmente discutir nossas ideias sem nos atacarmos mutuamente. Sejamos civilizados, de fato!

Toda e qualquer atitude preconceituosa deve ser desmerecida e rejeitada pela sociedade. Somos humanos diferentes uns dos outros. Magros de mais, gordos de mais, bonitos de mais, feitos de mais, chatos de mais, bacanas de mais, negros de mais, brancos de mais, ricos de mais, pobres de mais, inteligentes de mais, capacidades de intelectuais com defeitos de mais. Nós, seres humanos, somos de mais! E, inclusive, diferentes de mais. Mas, o que essa diferença nos dá o direito de atacarmos uns aos outros por conta delas? O que essas diferenças diminuem quem somos e o respeito que merecemos?

Sou contra o preconceito porque já o vivi na pele. Bem na pele!

Sei como é triste se vê sem lugar num mundo cheio de espaços e sozinho em um mundo cheio de gente. Por conta disso, aprendi a olhar o mundo sentada na cadeira do outro lado.

A sociedade precisa estar preparada para conviver com seus membros, pois todos de alguma forma somos minorias e diferentes em algum aspecto. Sou contra a violência, sou contra o discurso do ódio, sou contra a diferenciação social, sou contra portas fechadas pelo fato do ser simplesmente ser alguma coisa, ou um tipo de alguém. Sou contra o casamento homossexual, mas sou a favor da sociedade reconhecer que a necessidade de se regulamentar a união entre pessoas do mesmo sexo.

O exemplo que eu sempre dou é este:

“Ana e Maria estão em uma relação muito parecida com o que a sociedade chama de casamento. Mas, por não serem de sexos diferentes, se Ana ficar doente, não poderá usar o plano de saúde de Maria. Mas, se Ana fosse casada com João, poderia”.

É óbvia a necessidade de mudanças e de regulamentar a nível de terra, independente de questão religiosa. A nível de sociedade, alguém tem que resolver essa questão para esse grupo social. O que me oponho é a essa conquista também se dá no âmbito religioso.

Assim como defendo o respeito a forma como os homossexuais resolveram viver a vida deles, defendo o direito de crença daqueles que consideram essa prática fora dos padrões estabelecidos para a comunidade que eles se inserem e partilham fé. Neste ponto, chamo de casamento o ato religioso de união matrimonial entre duas pessoas de sexos distintos e que compactuam de algum credo religioso com essa visão.

Imagino que nenhum homossexual irá querer se casar na igreja. Mas, se esse é o temor do grupo social cristão (evangélico, católico, espírita, etc), vamos resguardá-los para que isso não aconteça.

Sou contra discursos que venham incitar violência contra qualquer pessoa, ou mesmo animal (estou iniciando minhas atividades como defensora animal). Discursos que venham motivar outras pessoas a atacarem e agredirem física ou verbalmente qualquer outra pessoa, seja por qualquer motivo que for.

Mas, sou contra criminalizarem o direito da pessoa dizer que não concorda com alguma prática/comportamento de um grupo social.

Por exemplo, sou negra e acho muito incoerente os negros quererem ser vistos sem diferenças, mas ao mesmo tempo criarem uma “raça negra”. Não concordo com isso. Não preciso me sentir negra, eu já sou e isso basta. Basta para eu ser e para que as pessoas assim me reconheçam, mesmo eu usando minha chapinha, não gostando de estampas e não tendo afeição pelos ritmos afros.

Agora, só por eu pensar dessa forma e em uma conversa eu falar algo do tipo, eu deveria ser presa?

Então, sinceramente, precisaremos criar uma jaula ao redor da terra para que todos vivêssemos em uma grande prisão, pois em algum momento ou outro não vamos nos agradar ou concordar com determinadas coisas.

Muitos não gostam de evangélicos e mostram o seu não gostar abertamente, por exemplo.

Neste ponto, eu compreendo quando alguns “líderes” evangélicos falam de se criar uma sociedade de intocáveis, caso alguma lei venha ser aprovada com relação à liberdade de expressão.

Outro exemplo é que eu fui para Europa, sabia que determinadas pessoas não gostavam de negros ou brasileiros. O que eu fiz? Eu não passava perto delas, simplesmente. Eu não ia mudar a forma delas pensarem, não iria transformar a sociedade deles e nem tornar a pele negra socialmente aceitável para elas, ou a cultura brasileira uma referência totalmente positiva, então eu me resguardava de incidentes. Digo que passei pela Europa sem sofrer nenhum tipo de preconceito.

O que está faltando na nossa sociedade é diálogo. O que temos é muito discurso perdido procurando a quem atacar, independente do que o indivíduo pense. Estamos todos lendo este texto com opiniões formadas e comentários prontos antes mesmo de terminarmos de ler. Gritamos para ouvir a nossa própria voz, incapazes de nos sentarmos e conversarmos como seres civilizados que podem se organizar socialmente, ouvindo com atenção o que o outro tem a dizer.

O que o outro faz ou deixa de fazer não muda minha fé. Não muda o comportamento que eu acredito que eu deva ter. Não me obriga a impor todos a serem como eu. Mas, leva-me a ter minhas mãos estendidas para ajudar a quem for, seja judeu, seja samaritano. No dia do juízo, cada um dará conta de si mesmo. Cuidar da minha própria vida já tem sido demasiado complicado, para que eu venha querer me meter na dos outros.

Que um dia nós venhamos todos juntos lutar com a mesma gana que estamos nos atacando por um país mais justo para os seres humanos, independente de grupos sociais. Um país sem fome, um país sem violência, um país com mais educação, saúde, justiça e respeito.

Abraços, Brasil!



Elisa Macedo.

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